{"id":1450,"date":"2014-04-17T14:42:39","date_gmt":"2014-04-17T14:42:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/?p=1450"},"modified":"2014-05-07T15:46:39","modified_gmt":"2014-05-07T15:46:39","slug":"baguncar-o-genero","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/2014\/04\/17\/baguncar-o-genero\/","title":{"rendered":"Bagun\u00e7ar o g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Laerte.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1451\" alt=\"Laerte\" src=\"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Laerte.jpg\" width=\"960\" height=\"310\" srcset=\"https:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Laerte.jpg 960w, https:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Laerte-300x96.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">Laerte<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ellos dicen representaci\u00f3n. Nosotros decimos experimentaci\u00f3n. Dicen identidad. Decimos multitud. Dicen domesticar la periferia. Decimos &#8220;mestizar&#8221; el centro. [&#8230;] Dicen disforia, transtorno, s\u00edndrome, incongruencia, deficiencia, minusval\u00eda. Decimos disidencia corporal<\/em> (1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E <em>Fazer bagun\u00e7a com o g\u00eanero<\/em> \u00e9 o que disse Miriam Chanaiderman, a diretora do document\u00e1rio <em>De gravata e unha vermelha<\/em>, apresentado no <em>19\u00ba Festival Internacional de Document\u00e1rios \u00c9 tudo Verdade<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este trabalho mostra um conjunto diverso de personagens que, de maneira muito pessoal, constroem a pr\u00f3pria identidade a partir da escolha de g\u00eanero. Por tanto, <em>fazer bagun\u00e7a com o g\u00eanero<\/em> significa produzir outros modos de vida a partir de novos valores, de v\u00ednculos interpessoais e da cria\u00e7\u00e3o de redes de afeto e cuidado. O filme d\u00e1 conta dessa pluralidade de sujeitos m\u00faltiplos capazes de <em>criar<\/em> vidas habit\u00e1veis sob a opress\u00e3o de uma sociedade heteropatriacal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada depoimento \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o das possibilidades infinitas na cria\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o do g\u00eanero. De Ney Matogrosso (criando uma imagem dificilmente classific\u00e1vel como ferramenta para zombar \u00e0 censura durante a ditadura militar) at\u00e9 o designer de moda Dudu Bertholini (o qual se considera um <em>gender fucker<\/em>), ou Bayard (Ex-Dzi Croquettes) ou tamb\u00e9m, Let\u00edcia Lanz (a presidenta da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Transg\u00eanero).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas das express\u00f5es art\u00edsticas t\u00eam um componente l\u00fadico-humor\u00edstico, como \u00e9 o trabalho do cartunista Laerte. Em face \u00e0quilo diferente e novo, sob a moral de um sistema cultural, o humor dela age como uma forma de insurrei\u00e7\u00e3o e de provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eduardo Laurentino \u00e9 designer de chap\u00e9us e mora em S\u00e3o Paulo. A vestimenta dele me lembrou o New Look que Flavio de Carvalho usou na Experi\u00eancia n\u00ba 3, em 1956. Para Flavio, o traje do homem ocidental era <em>inc\u00f3modo e n\u00e3o adaptado ao clima tropical e \u00e0 viv\u00eancia metropolitana\u00a0<\/em>(2). Na s\u00e9rie de artigos sob o t\u00edtulo <em>A Moda e o Novo Homem<\/em>, afirmou que a roupa \u00e9 uma &#8220;defesa an\u00edmica&#8221; que &#8220;protege e permite a ousadia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa ousadia foi a que levou a Flavio para <em>um passeio com o traje tropical<\/em> na <em>Experi\u00eancia n\u00ba3<\/em>, vestido de saiote, com uma blusa de n\u00e1ilon vermelha de estranho corte, sand\u00e1lias de couro, meias de bailarina e um chap\u00e9u de pano transparente. Eis <em>a roupa do futuro<\/em>. <em>&#8220;Uma tentativa de revolu\u00e7\u00e3o na indument\u00e1ria masculina&#8221;, segundo a manchete do Di\u00e1rio\u00a0<\/em>(3). Uma forma de subverter os elementos culturais da divis\u00e3o do g\u00eanero e questionar as conven\u00e7\u00f5es sociais da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A multid\u00e3o acompanhou ele durante o percurso. O pessoal agitado berrava &#8220;rid\u00edculas s\u00e3o nossas gravatas&#8230;&#8221;, &#8220;esse deve ser o tal smoking de baiano&#8221;&#8230; Segundo Flavio, <em>a roupa deve ser multicolorida para o homem deixar de ser t\u00e3o obtuso, t\u00e3o burro.<\/em> Aqui j\u00e1 apontava para uma cr\u00edtica aos par\u00e2metros da masculinidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No document\u00e1rio, Eduardo sai \u00e0 rua e \u00e9 interpelado por um passante. Ele faz refer\u00eancia \u00e0 <em>Experi\u00eancia n\u00ba2<\/em> do Flavio, considerada uma das primeiras performances na hist\u00f3ria da arte brasileira. Esse performer antropof\u00e1gico caminhou no sentido contr\u00e1rio na prociss\u00e3o de Corpus Christi visando estudar o comportamento da multid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de um <em>perform\u00e1tico precoce<\/em> foi cosmopolita, questionador e um libert\u00e1rio. No IV Congresso Pan-americano de Arquitetura (1930) apresentou uma tese bem curiosa: <em>A Cidade do Homem Nu<\/em>. O homem do futuro precisava <em>apresentar-se nu, sem tabus escol\u00e1sticos, livre para o racioc\u00ednio e o pensamento. Apresentar sua alma para pesquisas; procurar a significa\u00e7\u00e3o da vida\u00a0<\/em>(4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O projeto urban\u00edstico de Fl\u00e1vio era organizado em zonas diferenciadas conc\u00eantricas: o <em>Centro de Ensino e Orienta\u00e7\u00e3o do Homem<\/em> ou o <em>Centro Hospitalar<\/em> e o <em>Centro da Er\u00f3tica<\/em>, <em>um laborat\u00f3rio onde se agitam os mais diversos desejos\u00a0<\/em>(5). Ele compreendeu a sexualidade como uma experi\u00eancia continuada, sem restri\u00e7\u00f5es, nem sacrif\u00edcios. O homem nu descobriria novos desejos sem repress\u00e3o e projetaria a energia e o libido livremente. Todo um projeto urban\u00edstico ut\u00f3pico tropical!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, os diversos personagens do document\u00e1rio admitiram ter grandes dificuldades nas rela\u00e7\u00f5es sexuais. Sabemos que a sexualidade \u00e9 um elemento fundamental na constru\u00e7\u00e3o de nossa subjetividade, mas tamb\u00e9m \u00e9 magnificado. Frente \u00e0 sociedade, parece quase uma obriga\u00e7\u00e3o ter que lidar com isso<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensando nisso, me lembrei da primeira exposi\u00e7\u00e3o do projeto El Palomar, <a href=\"http:\/\/el-palomar.tumblr.com\/post\/40512721379\"><em>Lo m\u00e1s revolucionario hoy es ser casto o tener una vida sexual frustrante<\/em><\/a> (Barcelona, 2013). Os artistas MarioKissme e R. Marcos Mota realizaram uma cr\u00edtica ao consumo sexual cujo engano \u00e9 fazer sentir aos cidad\u00e3os mais livres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s do visionado, tivemos o prazer de conversar com Miriam Chanaiderman e Jo\u00e3o Nery. Ele apontou para algumas das dificuldades no cotidiano da comunidade transexual. Por exemplo, a distribui\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria nos sanit\u00e1rios p\u00fablicos, a vestimenta, as quest\u00f5es relativa \u00e0 sa\u00fade, entre outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o \u00e9 o primeiro transexual brasileiro. Foi operado pela primeira vez em 1977. Apesar de que a opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o o fez mais homem, como afirmou, foi o in\u00edcio de todo um percurso vital muito complicado. Tem publicado as mem\u00f3rias no livro <a href=\"http:\/\/www.buscape.com.br\/viagem-solitaria-memorias-de-um-transexual-30-anos-depois-joao-w-nery-8580443245.html?pos=1#precos\"><em>Viagem solit\u00e1ria &#8211; Mem\u00f3rias de um Transexual 30 Anos Depois<\/em><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano passado come\u00e7ou a tramita\u00e7\u00e3o de um projeto de <em>Lei de Identidade de G\u00eanero<\/em> do deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) e da deputada Erika Kokay (PT- DF). Ela estabelece <em>o livre desenvolvimento da pessoa conforme sua identidade de g\u00eanero<\/em> e <em>ser identificada dessa maneira nos instrumentos que acreditem sua identidade pessoal a respeito do\/s prenome\/s da imagem e do sexo com que \u00e9 registrada neles<\/em>. Essa lei j\u00e1 foi aprovada na Argentina. Vamos torcer pela aprova\u00e7\u00e3o aqui no Brasil. Isso seria um grande avan\u00e7o em mat\u00e9ria de liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na atualidade, os temas cl\u00e1ssicos do feminismo tais como o aborto, a viol\u00eancia, a sexualidade, o trabalho dom\u00e9stico e o acesso ao mercado laboral s\u00e3o ultrapassados pelas problem\u00e1ticas que atualmente trabalham os movimentos transfeministas: a constru\u00e7\u00e3o da subjetividade e da corporalidade, a pornografia, o trabalho sexual, a patologiza\u00e7\u00e3o da transexualidad&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As lutas transfeministas t\u00eam superado as diferen\u00e7as de ra\u00e7a, sexualidade e classe social para assumirem (e celebrarem) a heterogeneidade. O sujeito mulher \u00e9 excludente e j\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 conta das discuss\u00f5es relativas aos g\u00eaneros. Agora, um dos desafios na tarefa cr\u00edtica dos transfeminismos \u00e9 produzir as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade para atingir mudan\u00e7as nas esferas social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/-t1VPcZrjs4\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">NOTAS<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">1.\u00a0Preciado, B. <em>Decimos revoluci\u00f3n<\/em>. Pr\u00f3logo de <em>Transfeminismos. Epistemes, fricciones y flujos<\/em>. Tafalla Nafarroa: Txalaparta, 2013.<\/h4>\n<h4>2.\u00a0Robert Moraes, A.C. Flavio de Carvalho. O perform\u00e1tico precoce. S\u00e3o Paulo: Brasiliense S. A. 1986.<\/h4>\n<h4>3. Ibid,2.<\/h4>\n<h4>4. Carvalho. F. <em>Di\u00e1rio da noite<\/em>. 01\/07\/1930.<\/h4>\n<p>5. Ibid, 4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laerte Ellos dicen representaci\u00f3n. Nosotros decimos experimentaci\u00f3n. Dicen identidad. Decimos multitud. Dicen domesticar la periferia. Decimos &#8220;mestizar&#8221; el centro. [&#8230;] Dicen disforia, transtorno, s\u00edndrome, incongruencia, deficiencia, minusval\u00eda. Decimos disidencia corporal (1). E Fazer bagun\u00e7a com o g\u00eanero \u00e9 o que &hellip; <a href=\"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/2014\/04\/17\/baguncar-o-genero\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-1450","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-no-pais-tropical"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1450","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1450"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1450\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1456,"href":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1450\/revisions\/1456"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1450"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1450"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1450"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}