{"id":1481,"date":"2014-11-27T21:28:51","date_gmt":"2014-11-27T21:28:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/?p=1481"},"modified":"2014-11-27T21:28:51","modified_gmt":"2014-11-27T21:28:51","slug":"o-amor-comeu","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.tea-tron.com\/paolamarugan\/blog\/2014\/11\/27\/o-amor-comeu\/","title":{"rendered":"o amor comeu"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Verdana;\">O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certid\u00e3o de idade, minha genealogia, meu endere\u00e7o. O amor comeu meus cart\u00f5es de visita. O amor veio e comeu todos os pap\u00e9is onde eu escrevera meu nome.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Verdana;\">O amor comeu minhas roupas, meus len\u00e7os, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o n\u00famero de meus sapatos, o tamanho de meus chap\u00e9us. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Verdana;\">O amor comeu meus rem\u00e9dios, minhas receitas m\u00e9dicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Verdana;\">O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as cita\u00e7\u00f5es em verso. Comeu no dicion\u00e1rio as palavras que poderiam se juntar em versos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Verdana;\">Faminto, o amor devorou os utens\u00edlios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utens\u00edlios: meus banhos frios, a \u00f3pera cantada no banheiro, o aquecedor de \u00e1gua de fogo morto mas que parecia uma usina.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Verdana;\">O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a \u00e1gua dos copos e das quartinhas. Comeu o p\u00e3o de prop\u00f3sito escondido. Bebeu as l\u00e1grimas dos olhos que, ningu\u00e9m o sabia, estavam cheios de \u00e1gua.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Verdana;\">O amor voltou para comer os pap\u00e9is onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Verdana;\">O amor roeu minha inf\u00e2ncia, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o l\u00e1pis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto \u00e0 bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de autom\u00f3vel.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Verdana;\">O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a \u00e1gua morta dos mangues, aboliu a mar\u00e9. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde \u00e1cido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chamin\u00e9s.\u00a0 Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu at\u00e9 essas coisas de que eu desesperava por n\u00e3o saber falar delas em verso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Verdana;\">O amor comeu at\u00e9 os dias ainda n\u00e3o anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu rel\u00f3gio, os anos que as linhas de minha m\u00e3o asseguravam.\u00a0Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Verdana;\">O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu ver\u00e3o.\u00a0Comeu meu sil\u00eancio, minha dor de cabe\u00e7a, meu medo da morte.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"justify\"><strong>Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto<\/strong>, <em>Os Tr\u00eas Mal-Amados<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"justify\">\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/3_QXaXnhpE4\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certid\u00e3o de idade, minha genealogia, meu endere\u00e7o. O amor comeu meus cart\u00f5es de visita. 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