o amor comeu

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto, Os Três Mal-Amados

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Performa(ti)Cidades

Colóquio Internacional Performa_ti_Cidades

De 24 a 26 de setembro de 2014

Instituto de Artes da UERJ 

O Colóquio Internacional Performa_ti_Cidades que se realizará na cidade do Rio de Janeiro entre os dias 24-25-26 de setembro de 2014, pretende reunir um grupo de professores, artistas-pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação dos campos da dança, do teatro, da performance, das artes visuais, da filosofia, da comunicação e educação, para apresentação de trabalhos que tenham como foco o tema do corpo/cidade/performatividade.

Pensado como lugar de encontros, de intercâmbios e produção de saberes em rede, o colóquio constitui alguns dos desdobramentos do projeto Zonas de Contato, que se constitui de um programa de residência artística e de intercâmbio cultural voltado para o fortalecimento das pesquisas e produções artísticas de grupos e coletivos da cidade do Rio de Janeiro e do interior do estado.

O projeto Zonas de Contato iniciou-se em 2011 vinculado ao projeto de extensão Palco em Debate, do Instituto de Artes da UERJ; mas, foi a partir de 2012 com o apoio da FAPERJ, que o projeto ampliou sua rede de parcerias, proporcionando novas discussões acerca das relações entre arte, cidade e corpografias urbanas, que resultaram na criação de performances e de experimentos cênicos em diferentes sítios e espaços das cidades. O colóquio será organizado em mesas redondas, encontros com os grupos e coletivos convidados, exposição, intervenções e performances. O colóquio deseja ainda traduzir os referenciais estéticos, políticos, éticos e pedagógicos que permeiam produções inscritas numa perspectiva híbrida e concorrem para estimular o pensamento acerca do corpo (cotidiano, vibrátil, performático, extracotidiano) com a/na cidade.

Garanta sua inscrição pelo e-mail: performa.cidades@gmail.com

flyer divulgação

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Bagunçar o gênero

Laerte

Laerte

Ellos dicen representación. Nosotros decimos experimentación. Dicen identidad. Decimos multitud. Dicen domesticar la periferia. Decimos “mestizar” el centro. [...] Dicen disforia, transtorno, síndrome, incongruencia, deficiencia, minusvalía. Decimos disidencia corporal (1).

E Fazer bagunça com o gênero é o que disse Miriam Chanaiderman, a diretora do documentário De gravata e unha vermelha, apresentado no 19º Festival Internacional de Documentários É tudo Verdade.

Este trabalho mostra um conjunto diverso de personagens que, de maneira muito pessoal, constroem a própria identidade a partir da escolha de gênero. Por tanto, fazer bagunça com o gênero significa produzir outros modos de vida a partir de novos valores, de vínculos interpessoais e da criação de redes de afeto e cuidado. O filme dá conta dessa pluralidade de sujeitos múltiplos capazes de criar vidas habitáveis sob a opressão de uma sociedade heteropatriacal.

Cada depoimento é uma demonstração das possibilidades infinitas na criação e experimentação do gênero. De Ney Matogrosso (criando uma imagem dificilmente classificável como ferramenta para zombar à censura durante a ditadura militar) até o designer de moda Dudu Bertholini (o qual se considera um gender fucker), ou Bayard (Ex-Dzi Croquettes) ou também, Letícia Lanz (a presidenta da Associação Brasileira de Transgênero).

Algumas das expressões artísticas têm um componente lúdico-humorístico, como é o trabalho do cartunista Laerte. Em face àquilo diferente e novo, sob a moral de um sistema cultural, o humor dela age como uma forma de insurreição e de provocação.

Eduardo Laurentino é designer de chapéus e mora em São Paulo. A vestimenta dele me lembrou o New Look que Flavio de Carvalho usou na Experiência nº 3, em 1956. Para Flavio, o traje do homem ocidental era incómodo e não adaptado ao clima tropical e à vivência metropolitana (2). Na série de artigos sob o título A Moda e o Novo Homem, afirmou que a roupa é uma “defesa anímica” que “protege e permite a ousadia”.

E essa ousadia foi a que levou a Flavio para um passeio com o traje tropical na Experiência nº3, vestido de saiote, com uma blusa de náilon vermelha de estranho corte, sandálias de couro, meias de bailarina e um chapéu de pano transparente. Eis a roupa do futuro. “Uma tentativa de revolução na indumentária masculina”, segundo a manchete do Diário (3). Uma forma de subverter os elementos culturais da divisão do gênero e questionar as convenções sociais da época.

A multidão acompanhou ele durante o percurso. O pessoal agitado berrava “ridículas são nossas gravatas…”, “esse deve ser o tal smoking de baiano”… Segundo Flavio, a roupa deve ser multicolorida para o homem deixar de ser tão obtuso, tão burro. Aqui já apontava para uma crítica aos parâmetros da masculinidade.

No documentário, Eduardo sai à rua e é interpelado por um passante. Ele faz referência à Experiência nº2 do Flavio, considerada uma das primeiras performances na história da arte brasileira. Esse performer antropofágico caminhou no sentido contrário na procissão de Corpus Christi visando estudar o comportamento da multidão.

Além de um performático precoce foi cosmopolita, questionador e um libertário. No IV Congresso Pan-americano de Arquitetura (1930) apresentou uma tese bem curiosa: A Cidade do Homem Nu. O homem do futuro precisava apresentar-se nu, sem tabus escolásticos, livre para o raciocínio e o pensamento. Apresentar sua alma para pesquisas; procurar a significação da vida (4).

O projeto urbanístico de Flávio era organizado em zonas diferenciadas concêntricas: o Centro de Ensino e Orientação do Homem ou o Centro Hospitalar e o Centro da Erótica, um laboratório onde se agitam os mais diversos desejos (5). Ele compreendeu a sexualidade como uma experiência continuada, sem restrições, nem sacrifícios. O homem nu descobriria novos desejos sem repressão e projetaria a energia e o libido livremente. Todo um projeto urbanístico utópico tropical!

Aliás, os diversos personagens do documentário admitiram ter grandes dificuldades nas relações sexuais. Sabemos que a sexualidade é um elemento fundamental na construção de nossa subjetividade, mas também é magnificado. Frente à sociedade, parece quase uma obrigação ter que lidar com isso

Pensando nisso, me lembrei da primeira exposição do projeto El Palomar, Lo más revolucionario hoy es ser casto o tener una vida sexual frustrante (Barcelona, 2013). Os artistas MarioKissme e R. Marcos Mota realizaram uma crítica ao consumo sexual cujo engano é fazer sentir aos cidadãos mais livres.

Após do visionado, tivemos o prazer de conversar com Miriam Chanaiderman e João Nery. Ele apontou para algumas das dificuldades no cotidiano da comunidade transexual. Por exemplo, a distribuição binária nos sanitários públicos, a vestimenta, as questões relativa à saúde, entre outras.

João é o primeiro transexual brasileiro. Foi operado pela primeira vez em 1977. Apesar de que a operação não o fez mais homem, como afirmou, foi o início de todo um percurso vital muito complicado. Tem publicado as memórias no livro Viagem solitária – Memórias de um Transexual 30 Anos Depois.

No ano passado começou a tramitação de um projeto de Lei de Identidade de Gênero do deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) e da deputada Erika Kokay (PT- DF). Ela estabelece o livre desenvolvimento da pessoa conforme sua identidade de gênero e ser identificada dessa maneira nos instrumentos que acreditem sua identidade pessoal a respeito do/s prenome/s da imagem e do sexo com que é registrada neles. Essa lei já foi aprovada na Argentina. Vamos torcer pela aprovação aqui no Brasil. Isso seria um grande avanço em matéria de liberdades democráticas.

Na atualidade, os temas clássicos do feminismo tais como o aborto, a violência, a sexualidade, o trabalho doméstico e o acesso ao mercado laboral são ultrapassados pelas problemáticas que atualmente trabalham os movimentos transfeministas: a construção da subjetividade e da corporalidade, a pornografia, o trabalho sexual, a patologização da transexualidad…

As lutas transfeministas têm superado as diferenças de raça, sexualidade e classe social para assumirem (e celebrarem) a heterogeneidade. O sujeito mulher é excludente e já não dá conta das discussões relativas aos gêneros. Agora, um dos desafios na tarefa crítica dos transfeminismos é produzir as condições de possibilidade para atingir mudanças nas esferas social e política.

NOTAS

1. Preciado, B. Decimos revolución. Prólogo de Transfeminismos. Epistemes, fricciones y flujos. Tafalla Nafarroa: Txalaparta, 2013.

2. Robert Moraes, A.C. Flavio de Carvalho. O performático precoce. São Paulo: Brasiliense S. A. 1986.

3. Ibid,2.

4. Carvalho. F. Diário da noite. 01/07/1930.

5. Ibid, 4.

 

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Mr. Sganzerla

Procuro sempre a tese: é um trabalho que me apaixona, pois devo ser sincero para com aquilo que sou, e não passo de um experimentador. A meus olhos, o único valor consiste em não ditar leis, mas ser um experimentador, experimentar é a única coisa que me entusiasma.
Orson Welles  (1)

Sônia Silk (interpretada por Helena Ignez) deambula por Copacabana com um grande sonho: ser cantora da Rádio Nacional. Ela vai se confrontando de forma direita com a câmara e os transeuntes na rua. Não existe a fronteira entre a vida e a escena que está se registrando.

É o ano 1970 no Brasil. No meio de um clima de paranóia, por conta de um ano de repressão após o AI-5, Rogério Sganzerla começa a experimentar a lente cinemascope, tendo como resultado esse terremoto tropical ou Tropicalista(2) chamado Copacabana, Mon Amour. Um dos sete filmes produzidos por Belair.

Segundo o crítico Jairo Ferreria, as origens da estética experimental no cinema brasileiro são totalmente incertos, mas poderia-se falar de uma nova estética experimental que começa a ser cultivada por volta de 1967. O experimental no cinema brasileiro explora novas formas para novas ideias, novos processos narrativos e novas percepções, visando atingir novas áreas de consciência.

A criação da produtora Belair, em 1970 (Rogério Sganzerla + Júlio Bressane), supõe a radicalização de uma proposta cinematográfica no terreno da estética. São filmes com alusões muito direitas aos aspectos da vida brasileira, através da ironia, de um novo erotismo, de uma hiper gestualidade, colocando os problemas daquela época no campo do Kitch. Belair desenvolve um cinema como produtora ligado às tradições brasileiras e à arte popular (o samba, o candomblé, o rádio e o jeito de ser brasileiro).

É comum encontrar a etiqueta “cinema marginal” para se referir as formas de fazer cinema de Belair. Embora seja somente uma maneira de identificar um conjunto de filmes dessa época, o termo não era bem-vindo. O “marginal” ficou com relação aos anos mais escuros da ditadura. Aliás, a expressão de Jairo Ferreira “cinema de invenção” faz justiça às produções daquela vanguarda. Segundo Ismail Xavier, esse movimento assumiu o risco da invenção pagando o preço da censura e da marginalização. De alguma maneira, afirma o professor da USP, o conceito “marginal” é reativo porque os cineastas não tiveram uma atitude deliberada de ser marginal.

Nos filmes de Rogério frequentemente aparecem ângulos preciosistas, de mau gosto, alterações da câmera ou enquadramentos não direitinhos. No Manifesto-texto que escreveu sobre o filme O Bandido da Luz Vermelha (1968), afirmava ser acadêmico somente quando lhe interessava, e além do mais, descrevia o seu cinema como péssimo e livre, paleolítico e atonal, panfletário e revisionário. Desta maneira a ruptura ao movimento de elite, aristocrático, paternalizante e acadêmico, ou seja, o Cinema Novo, era já um fato.

Fevererio, 2014. No mítico Cinema Odeon de Rio de Janeiro acontece uma sessão especial. A exibição da cópia restaurada em 35mm de Copacabana, Mon Amour. Dita restauração vai a cargo de Hernani Heffner, diretor da Cinemateca do MAM/RJ e ministrada por Sinai Sganzerla (filha de Helena e Rogério) e a mesma Helena Ignez (musa e companheira do diretor).

Após os agradecimentos, o filme começa arremessando ao espectador o olhar da vida mesmo dos morros no Rio de Janeiro. Rogério fazia uma distinção entre os cineastas da alma e os cineastas do corpo. Os primeiros desenvolviam um cinema fundamentado pela “distância cínica” de uma câmera interessada em registrar a violência e a agilidade das “tragédias físicas”. Nos segundos, onde incluir o mesmo Rogério, o corpo é pura gestualidade manifestada em diferentes dimensões, isto é, no pensamento, no movimento e na ação.

O corpo de Helena Ignez berra reiteradamente tenho pavor à velhice! Ela é a figura central desse cinema de invenção. No filme, o corpo dela caminha entre a santidade e a sensualidade. É um corpo orgástico, dionisíaco.

Nessa impossibilidade de distinguir entre a vida e o cinema, a improvisação é uma ferramenta chave. O filme não é uma representação, mas uma apresentação que vai se construindo e vai se mostrando. A câmera registra as performances dos corpos livres, sensuais e revolucionários, mas também são corpos explorados, desesperados, servis, colonizados, desenvolvidos…

Tudo fica carnavalizado através da coreografia que o corpo invisível da câmera desenvolve. É impossível não sentir a falta desse corpo que constrói junto a Helena esse delírio brasileiro. A escena do guincho girando com Helena Ignez e Paulo Villaça dançando meio pelados ao ritmo da música “Mr. Sganzerla” de Gilberto Gil é uma chamada à ação. A vida não consiste em ficar sentado na poltrona do cinema. A vida é pra valer,  não se engane, não – como falou o poeta. 

Fica inaugurada uma nova etapa no Brasil.

1Nota extraída do “Cinema da invenção”, Jairo Ferreria.

2Esse tipo de experimentação acontecerá dez anos mais tarde em A Idade da Terra de Glauber Rocha.

Referências bibliográfica

FERREIRA, JAIRO. Cinema de invenção. São Paulo: Limiar, 2000.

PERSON, LUIS SERGIO. São Paulo S/A. Disponível em: <http://www.contracampo.com.br/86/dvdsaopaulo.htm>. Data de acesso: 24/02/2014.

XAVIER, ISMAEL. Alegorias do desenvolvimento. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

 

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Após do fim de Danto

Brillo Box

No domingo 27 de outubro Lou Reed foi embora para sempre. De manhã entrei no Facebook e quase todos os meus “amigos” o lembravam. No mesmo dia também faleceu o filósofo e crítico de arte Arthur Danto.

Estes meses em São Paulo tenho conhecido uma pessoa que faz uma pesquisa sobre o artista Carybé, argentino de nascimento, mas residente no Salvador de Baia quase a vida toda.

Na semana passada, falando sobre a situação da arte contemporânea no Brasil, ele apontou à ausência total de regras, uma radical tolerância e um profundo pluralismo, diz-se, as disciplinas têm perdida sua autonomia. A verdade é que não vejo problema nenhum nisso. Eu senti a necessidade de desempoar o crítico Danto, o qual desenvolveu as razões históricas pelas quais a arte já não pode sustentar nenhum tipo de relato.

Segundo ele, o modernismo introduz um elemento que marca um ponto na história da arte: a autoconsciência. Aí as condições de representação vêm a se tornar centrais. A arte vai se perguntar pelo meio específico da pintura ou da escultura, isto é, pergunta pelos métodos característicos de uma disciplina para uma autocrítica, mas não para subvertê-la quanto para reafirmar sua área específica.

Por outro lado, o meu interlocutor falou que o uso dos conceitos pode levar à confusão. A modernidade não só faz referência a um período, cujo início é no final do século XIX, mas implica mudanças marcantes num novo nível de consciência. Mesmo assim, o conceito “moderno” não significa aquilo mais recente, mas dá conta como uma noção de estratégia, estilo e ação.

Parece que foi a partir de 1960 quando a arte tinha perdido o rumo. Já não existia uma corrente, mas uma grande variedade: minimalismo, neo-realismo francês, pop, op, abstração geométrica, nova escultura, happening e arte da performance, etc… Portanto, se a arte fica longe de atingir uma única direção histórica, será que podermos afirmar que a arte contemporânea se caracteriza pela perda de direção, pelo caos (produção massiva desarrumada) e pela quase total liberdade?

Segundo Danto, uma vez que a Brillo Box de Andy Warhol foi apresentada na galeria Stable (em NYC), o significado da arte já no pode ser atingido através dos exemplos concretos, mesmo porque as aparências não dão conta. Portanto, a arte precisou dar um giro para a filosofia. Achei que o meu interlocutor não consegue concordar. Ele ama a pintura barroca e não sente se mexido nem pelas Brillo Box nem pelos ready-mades em geral.

A partir daqui, a pergunta fica clara: o que acontece com a arte em si mesma? O que acontece com a obra da arte em relação à filosofia? Danto demarca três momentos na história da arte: o primeiro é a era da mimese, o segundo, a era dos manifestos – quando o modernismo introduziu a filosofia  no coração da produção artística, e o terceiro, o que ele chama a era pós-histórica.

O fim da autoconsciência leva uma liberação dos artistas da carrega histórica. A partir daí os artistas podem fazer tudo aquilo que eles desejam. Com a chegada da contemporaneidade, nenhuma arte é mais verdadeira do que outra, nem são confrontadas historicamente.

O que Danto chamou a era dos manifestos é filosoficamente indefensável, porque todo manifesto singulariza a arte que justifica como única e verdadeira. Na arte contemporânea, aliás, uma Arte Verdadeira não existe, mas toda arte é igual e indiferentemente arte. Assim acontece uma anulação de toda hierarquia possível.

Então, qual é a diferença entre uma obra de arte e alguma coisa que não é uma obra de arte quando não podemos perceber diferenças entre elas? Para Danto é um problema filosófico explicar as diferenças entre uma Brillo box exposta na galeria Stable ou num supermercado, ou entre a música e o barulho ou entre a dança e o movimento.

Assim podermos afirmar que “o contemporâneo” não exclui, mas captura ou acolhe as disciplinas todas considerando-as iguais. Isto não significa que não exista uma direção histórica, mas uma pluralidade de direções.  Vou torcer ao meu interlocutor para responder neste meio à questão da autonomia das disciplinas.

Será após do fim de Danto que vai começar a era pós-disciplinar?

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re-enactment kicks off!!

Re-enactment cabecera blog 20cm

 

Proud of announcing my new curatorial project: re-enactment is an expanded archive on performance art based on body-to-body transmission at the digital platform stuffinablank.

Please, take a look at the methodology. If you attended some of that performances, please send me an e-mail: reenactment.archive@gmail.com

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Cristina Blanco #Visita desguiada @CaixaForum

posible4+ (pequeña)

Sigo trabajando en las intervenciones para la exposición Qué desear. Qué pensar. Qué hacer, comisariada por Rosa Martínez, en el CaixaForum.

Para Qué hacer, Cristina Blanco nos propone Invente su realidad aquí, una visita desguiada que presentará todos los miércoles del mes de julio. Inauguramos el 3 de julio.

No os voy a contar mucho más. Los días: 3 – 10 – 17 – 24 – 31. Un pase a las 20h y otro a las 21h. Por el módico precio de 4€. ¿Qué más se puede pedir?

¡NOS VEMOS ALLÍ!

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Erika Jaramillo ocupa mi blog

occupy your blog”

ocupo tu blog #1

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19.06.2013 00:12 Ocupo tu blog…

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19.06.2013 01:17 Escribiendo mensajes de correo electrónico a unos de los entrevistados y ocupo tu blog…

PD. 19.06.2013 13:30 por que tenemos invitados…

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19.06.2013 08:35 Ocupo tu blog:

ocupar. (Del lat. occupāre).
1. tr. Tomar posesión o apoderarse de un territorio, de un lugar, de un edificio, etc., invadiéndolo o instalándose en él.
2. tr. Obtener, gozar un empleo, dignidad, mayorazgo, etc.
3. tr. Llenar un espacio o lugar.
4. tr. Habitar una casa.
5. tr. Dar que hacer o en qué trabajar, especialmente en un oficio o arte.
6. tr. Embarazar o estorbar a alguien.
7. tr. Llamar la atención de alguien; darle en qué pensar.
8. prnl. Emplearse en un trabajo, ejercicio o tarea.
9. prnl. Preocuparse por una persona prestándole atención.
10. prnl. Poner la consideración en un asunto o negocio.
11. prnl. Asumir la responsabilidad de un asunto, encargarse de él.

PD. 19.06.2013 13:35 nótese las variaciones en el texto, tachar a medida que se suceden las acepciones de la palabra “ocupar” o se reflexiona sobre las mismas.

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19.06.2013 13:52 Antesala al primer desplazamiento en donde me ocuparé (verbo conjudado: indicativo futuro simple) de ocupar tu blog… en paralelo a la función multitareas por la inauguración mañana en Bogotá de Cuerpo en Disolvencia, flujos, secreciones, residuos, exposición en la que participo, léase: otras ocupaciones (sustantivo femenino plural de ocupación).

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19.06.2013 15:51 Ocuparse imprimiendo las lecturas de la tarde…

PD. 21.06.2013 13:20 de esta tarde…

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en unas horas: ocupara u ocupase (verbo conjudado: subjuntivo pretérito imperfecto)

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19.06.2013 18:51 Entrevista con Marc Casanovas, próximamente aquí, por ahora un adelanto:

entrevista con Marc Casanovas

PD. 20.06.2013 05:05 Entrevista a Marc Casanovas dentro del proyecto “occupy your blog”

Marc Casanovas es licenciado en Filosofía y Literatura Comparada por la UAB y militante de Revolta Global-Esquerra Anticapitalista. Ha colaborado en publicaciones como Punto de vista internacional, Revelión, Herramienta o Grund Magazine… Es redactor de Viento Sur, donde ha publicado “Culturas y contraculturas en la jaula de hierro de la mercancia” (nº 91) o “Contra la financiación de la literatura” (nº 100). Actualmente forma parte del consejo asesor de la colección Los libros de Viento Sur-La Oveja Roja y es el programador cultural del Barcelones Ateneu Rebel.

…¿Qué te ocupa? o ¿en qué te ocupas? ¿Qué te preocupa? ¿Cómo ocuparse? ¿Qué crees que es necesario ocupar? ¿Qué te despreocupa?

PD. 2. 20.06.2013 15:16 Una oportunidad para conocer más el pensamiento de Marc Casanovas:

El Sábado 22 de Junio a las 19:30 se presenta la opera prima de nuestro compamigo Marc Casanovas, “Organizar el rechazo. Vanguardias culturales y política revolucionaria” editado por Crítica&Alternativa. La presentación contará con el autor y con Miguel Romero, editor de la revista VIENTO SUR. + información http://www.lamarabunta.info

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19.06.2013 20.25 ¡¡¡ATENCIÓN!!!occupy your blog” es una respuesta a una iniciativa de Paola Marugán llamada “Ocupa my blog” cito:
OCUPA MI BLOG es un programa de residencias, dirigido a artistas interesadas en ocupar mi blog durante tres días.”

Dado el nombre del programa de residencias “Ocupa my blog” mi propuesta es ocupar el blog partiendo de la palabra “ocupar” y su conjugación “ocuparse” para convertir este espacio en un espacio de reflexión temporal sobre la importancia de los movimientos sociales dentro de la sociedad civil.

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19.06.2013 20.44 “occupy your blog” agradece la ayuda de Vicens Jordana, quien como tantas otras veces apoya mis ocupaciones

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19.06.2013 20.50 “occupy your blog” a pasado parte de las tardes de ayer y hoy en: Can Batlló centro social autogestionado, donde hemos estado hablando de “ocupar” y “ocuparse” al  igual que hemos estado “ocupando” y “ocupandonos“.

PD. 20.06.2013 13:39 “occupy your blog” entrevista a Santiago Medina

¿Qué te ocupa? o ¿en qué te ocupas? ¿Qué te preocupa? ¿Cómo ocuparse? ¿Qué crees que es necesario ocupar?

PD. 21.06.2013 17:23 “occupy your blog” entrevista a Iván Soler Sorolla

¿Qué te ocupa? o ¿en qué te ocupas? ¿Qué te preocupa? ¿Qué crees que es necesario ocupar?

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19.06.2013 22.30 20.06.2013 01:39 apróximadamente y aún en proceso subida de vídeos… ocupada.

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20.06.2013 02:18 los ocupas también comen ¡¡¡hora de cenar!!!

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20.06.2013 12:43

ocupación

  • Pronunciación:  [ o.ku.pa.ˈθjon ] o [ o.ku.pa.ˈsjon ]  (AFI)
  • Etimología: del latín occupationem, el acusativo del nominativo occupatio, un sustantivo de la acción del participio pasado de occupare, de ob (“sobre“) y capere (“agarrar“), del protoindoeuropeo *kap-.

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20.06.2013 16:28 ocuparse en etiquetar…

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otras formas de ocupación:

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20.06.2013 20:23 en transito desde La Dispersa a mi centro de operaciones… más noticias pronto sobre como me ocupo

IMG_20130620_204340_60cm

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20.06.2013 22:44 La Dispersa… otras formas de ocupación y de ocuparse… hoy estube ocupada en la 1ª Asamblea de La Dispersa, pronto sabréis más…

La Dispersa_72p

PD. 21.06.2013 14:42

Captura de pantalla 2013-06-21 a las 13.28.46

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20.06.2013 23:19 voy a desocuparme

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21.06.2013 12:03 [según los datos del Observatorio Astronómico Nacional, el verano 2013 comenzo hoy viernes 21 de junio a las 07:04 horas y terminará el próximo 22 de septiembre, por lo que la estación durará 93 días y 15 horas hasta el comienzo del otoño.]

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21.06.2013 12:05 Escribiendo mensajes de correo electrónico a otros invitados a “occupy your blog” y ocupo tu blog…

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21.06.2013 13:16 centro de operaciones de occupy your blog.

IMG_20130621_122647

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21.06.2013 14:11 “occupy your blog” enlaza.

ocupar http://lema.rae.es/drae/?val=ocupar

ocupación http://es.wiktionary.org/wiki/ocupaci%C3%B3n

Centro social okupado http://es.wikipedia.org/wiki/Centro_social_okupado

Movimiento okupa http://es.wikipedia.org/wiki/Movimiento_okupa

Squatting http://commons.wikimedia.org/wiki/Okupa

Oficina d’Okupación http://www.okupatutambien.net/

Oficina de Okupación de Madrid http://www.okupatutambien.net/

21.06.2013 16:24

Manual de Okupación http://www.okupatutambien.net/wp-content/uploads/2011/11/ManualOkupacion1aEd.pdf

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21.06.2013 14:28

Captura de pantalla 2013-06-21 a las 14.21.52

Infraestructuras o recursos culturales en desuso https://maps.google.es/maps/ms?msid=215184850222138493709.0004dea557377e692bdd8&msa=0

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21.06.2013 16:21 Hablar sobre o para “occupy your blog” por correo electrónico, Facebook, Twitter… me ocupa

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21.06.2013 22:16 he pasado la tarde ocupadaocupando y ocupándome en Can Batlló… ahora descarga de fotografías y archivos de vídeo… sigo…

PD. 21.06.2013 19:00 a 21:00 apróximadamente ocupadaocupandoocupándomeocupar un espacio, ocuparse de él… próximamente el resultado…

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21.06.2013 23:04 “occupy your blog” entrevista a Paola Marugán

1. ¿Qué te ocupa? o en qué te ocupas?

Me ocupa y me ocupo básicamente de mi trabajo y de los temas relacionados con eso. Trabajar en cultura y concretamente en arte contemporáneo es una forma de hacer militancia cotidiana: visibilizando proyectos que la institución ignora, defendiendo a los públicos minoritarios frente a las lógicas de los “burning seat” de los “grandes teatros”, combatiendo con aquellos que se empeñan en mercantilizar la cultura con discursos llenos de palabras sin significado. Soy profesora de la UOC y desde ahí también me esfuerzo por cuestionar los discursos que emiten las instituciones, – que sin darnos cuenta, muchos gestores van repetiendo cada día – y aprender a pensar de forma crítica con los estudiantes. Aquí estoy aprendiendo mucho.

2. ¿Qué te preocupa?

Me preocupa ver como en un tiempo récord la institución se ha alejado más y más de las ciudadanas (hablo en femenino pero incluyo a todo el mundo). El hecho de ser freelancer me permite trabajar en diferentes proyectos, algunos ellos llevados a cabo desde instituciones públicas. En general (y digo esto porque siempre hay excepciones) hay un enorme gap entre las Casas y lo que pasa en la calle. Y como digo de un tiempo a esta parte, más sordos y más ciegos.

Me preocupa ver que en la esfera de la macropolítica defendemos una valores que en la micropolítica no tenemos en cuenta. Me preocupa la falta de solidaridad que en los últimos tiempos estoy viendo entre compañeras del contexto cultural. Esto me preocupa mucho. Al final le acabamos dando la razón al Sr. Hobbes, cuando decía en su Leviatán que el “hombre es un lobo para el hombre”. Esto me preocupa y me entristece.
Y por último y no menos importante, me preocupa mucho las formas de relación, en cuanto a los roles de género, en nuestro cotidiano.

3. ¿Cómo ocuparse?

El cómo ocuparse me parece la pregunta más difícil. :) Como te digo, yo me ocupo desde mi trabajo, día a día, pero no hay modelos, el caso es ir haciendo… porque sí que desde hace tiempo, tengo la sensación de que vivimos en guerra y cada una de nosotras nos vamos ocupando desde nuestros radios de acción, los que vamos construyendo según nuestros recursos y posibiliades.

4. ¿Qué crees que es necesario ocupar?

Pues mi blog, para empezar con algo sencillo, ya que vivimos en un mundo virtual llamado internet donde todo es teóricamente free y en realidad una gran parte de la red funciona con logins, contraseñas, etc… así que despojarme de esto y que ocuparan me parecía un buen principio. Hace poco, no recuerdo donde leí, una propuesta de ocupar el MACBA, me gustó. Ocupar museos y teatros y resignificar los espacios, cambiando sus reglas estrictas, podría ser un buen ejercicio para todas.

5. ¿Qué te despreocupa?

Me despreocupa todo aquello en lo que no creo: metafísicas varias ( no le dedico ningún tiempo) – religiones (que no quiere decir que no me preocupe las acciones – intervenciones llevadas a cabo por sus instituiones) y seguramente, un montón de cosas más que ahora no me vienen a la cabeza….

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21.06.2013 23:08 gracias Paola Marugán por invitarme a ocupar tu blog… ahora me ocuparé de mi cuerpo… es hora de cenar… pero este proceso iniciado en esta residencia sigue en proceso… así que continuará…

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Erika_Jaramillo

La semana que viene le doy las llaves a Erika Jaramillo. Miércoles 19, jueves 20 y viernes 21 de junio.

Dado que “ocupa mi bloc” es una residencia sin dosieres, ni curriculums… anotare sobre mi que:
…en Twitter digo: “Artista plástica, doctoranda del programa Espacio y Forma Escultórica-UCM, trabajo/a en @comafosca y @edicions2_0, ubicua, insomne, quiere un theremin… i…” utilizando 158 de los 160 caracteres permitidos… aquí podría agregar que colecciono varios conjuntos de objetos inútiles, que algunas cosas “cursis” me gustan, que muchas películas románticas me hacen llorar y que a mi mamá le encanta la canción «Supercalifragilisticoexpialidoso».

Pero aquí propongo hablar de ocupar, de ocuparse...

a manera de susurro, si a alguien le interesa puede visitar: erikajaramillo.net

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Lov€, performance de Marc Martínez

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El próximo miércoles 12 de junio, a las 20h, Marc Martínez presenta Lov€, la última performance de la exposición I don’t believe in You but I believe in Love.   

“Lov€, un trabajo que aborda las relaciones amorosas aprendidas, heredadas y establecidas, enfocando especialmente a su modificación y perversión, propiciadas por las nuevas tecnologías y la sociedad de consumo. Lov€ se crea atendiendo al contexto real en el que se desarrolla, a través del diálogo con las personas y obras que cohabitan en la galería”.

La exposición finaliza el 15 de junio.

 

Galería Balaguer
Consell de Cent,  315 entresuelo, 2ª
08007 Barcelona

 

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Entre a política e a estética

(más abajo, versión en castellano)

“El arte pasa a la acción”, Tucuman Arde

Alguns dos trabalhos que nós vemos na sessão “Videoactivismo Tropical – ilegalidades transformadoras” são uma amostra das diferentes formas de acionar os corpos na esfera pública e de ativação da memória coletiva.

Nesta apresentação pudemos distinguir vários usos estratégicos do corpo, que os cidadãos realizam para denunciar a violência exercida por certas ordens institucionais.

A performance é uma ferramenta idônea para ensaiar “micro revoluções”, transformar as relações e situar-se diante daqueles processos que afetam o coletivo e consequentemente o individual.

As fronteiras entre a arte da performance e as manifestações políticas performativas são muito permeáveis. A prática da performance situa-se no espaço liminal entre a estética e a política, abrindo debates e botando novas formas de atuar diante desse poder que arrasta, imobiliza, e até faz desaparecer.

Para Guillermo Gómez-Peña (*) o corpo é o “verdadeiro lugar para a criação e nossa verdadeira matéria prima”. Não tenho dúvida nenhuma que as ideias “lugar para criar” e “matéria prima” são compreendidas de formas muito diferentes segundo o prisma latino, anglo-saxão, europeu, asiático, etc.

Na América Latina, os artistas compreendem que o corpo é o lugar onde acontece o político. Lorena Wolfer, por exemplo, usa o seu corpo como “mapa simbólico que documenta e narra a violência”. Para a artista mexicana, o corpo é o veículo de representação da violência que sofrem as mulheres em México.

No passado mês de dezembro eu assisti à primeira edição da Performance Art Week em Veneza. Lá eu tive a oportunidade de conhecer vários artistas procedentes do continente americano. As suas performances chamaram minha atenção. O seus corpos operavam como campos de batalha do político.

O meu olhar europeu não podia deixar de interrogar a intenção e, sobretudo, a efetividade que tem a representação desse sujeito vulnerável (explorado, exilado, ameaçado, torturado, desaparecido). Continuo nessa interrogação.

Diana Taylor, em The archive and the repertoire. Performing cultural memory in the Americas, analisa a performance como uma parte integral da cultura que traspassa através de gerações.  Para isso, ela distingue entre o Arquivo e o Repertório.

O arquivo contém documentos, textos, vídeos e aqueles “restos” que podem ser considerados materiais duradouros. Todos estes elementos superam o comportamento ao vivo, já que ao não precisar da presença dos corpos, operam pela distância, transmitindo conhecimento de formas diferentes.

O repertório, pelo contrário, recolhe a memória corporal que funciona pelo meio dos corpos, em forma de música, gestos, dança, narrações orais, etc. Aqui a performance opera como um ato de transferência através de procedimentos compartilhados.

Estes dois sistemas de conhecimento desafiam à desaparição: os objetos (o arquivo) são uma forma perdurável de dar testemunho, e os processos ao vivo (o repertório), os atos de transferência que têm lugar em tempo real.

Assim, os vídeos da mostra são materiais do arquivo que tinham sobrevivido às ações mesmas, e que graças aos quais, nós podemos conhecer o que acontece no contexto brasileiro.

Os gestos, os berros, as canções, as simulações das torturas são a memória encarnada no vivo, no efêmero e no não reproduzível de um passado que se torna o presente. O repertório atua como armazém de condutas transmitidas pelas performances, as quais ativam a memória na prática coletiva.

A performance Balanço da 2ª Rodada Nacional de Esculachos de Levante Popular da Juventude na ciudade de São Paulo.
(*) Artigo de Guillermo Gómez-Peña: “En defensa del arte del performance”.

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 “El arte pasa a la acción”, Tucuman Arde

Algunos de los trabajos que vimos en la sesión “Videoactivismo Tropical – ilegalidades transformadoras” son una muestra de las diferentes formas de accionar los cuerpos en la esfera pública y de activación de la memoria colectiva.

En dicha presentación, pudimos distinguir varios usos estratégicos del cuerpo, que las ciudadanas llevan a cabo, para denunciar la violencia ejercida por ciertos órdenes institucionales.

La performance es la herramienta idónea para “ensayar micro-revoluciones”, transformar las relaciones y posicionarse frente a aquellos procesos que afectan a lo colectivo, y por tanto a lo individual.

Las fronteras entre el arte de la performance y las manifestaciones políticas performativas son muy permeables. La práctica de la performance se sitúa en el espacio liminal entre la estética y la política, abriendo debates y proponiendo nuevas formas de actuar frente a ese poder que arrastra, inmoviliza, invisibiliza y hasta hace desaparecer.

Para Guillermo Gómez-Peña (*), el cuerpo es el “verdadero sitio para la creación y nuestra verdadera materia prima”. Sin duda, las ideas “sitio para crear” y “materia prima” son entendidas de formas muy diferentes según el prisma latinoamericano, anglosajón, europeo, asiático, etc…

En América latina, los artistas entienden que el cuerpo es el lugar donde acontece lo político. Lorena Wolfer, por ejemplo, utiliza su cuerpo como “mapa simbólico que documenta y narra la violencia”. Para esta artista mexicana, el cuerpo es el vehículo de representación de la violencia que sufren las mujeres en México.

El pasado mes de diciembre asistí a la primera edición de la Performance Art Week en Venecia, donde tuve la oportunidad de conocer a varios artistas procedentes del continente americano. Ni un solo performance me dejó indiferente. Sus cuerpos operaban como campos de batalla de lo político.

Mi mirada europea no podía dejar de interrogar la intención y sobre todo, la efectividad que tiene la representación de ese sujeto vulnerable (explotado, exiliado, amenazado, torturado, desaparecido). Dicha interrogación continua abierta.

Diana Taylor, en The archive and the repertoire. Performing cultural memory in the Americas, analiza la performance como parte integral de la cultura que se transmite a través de generaciones. Para ello, distingue entre Archivo y Repertorio.

El archivo contiene documentos, textos, vídeos y aquellos “restos” que pueden ser considerados materiales duraderos. Todos estos elementos superan al comportamiento en vivo, ya que al no requerir de la presencia de los cuerpos, operan a través de la distancia, transmitiendo conocimiento de forma diferente.

El repertorio, por el contrario, recoge la memoria corporal que funciona a través de los cuerpos, en forma de música, gestos, danza, narraciones orales, etc. Aquí la performance opera como un acto de transferencia a través de ceremonias compartidas.

Estos dos sistemas de conocimiento desafían a la desaparición: los objetos (el archivo) son la forma perdurable de dar testimonio, y los procesos en vivo (el repertorio), los actos de transferencia que tienen lugar en tiempo real.

Así mismo, los vídeos de la muestra son materiales del archivo que han sobrevivido a las acciones mismas, y que gracias a los cuales pudimos conocer lo que ocurre en el contexto brasileño.

Los gestos, los gritos, las canciones, las simulaciones de las torturas son la memoria encarnada en lo vivo, en lo efímero y en lo no-reproducible, de un pasado que se vuelve presente. El repertorio funciona como un almacén de conductas transmitidas a través de las performances, las cuales activan la memoria en la práctica colectiva.

Performance Balanço da 2ª Rodada Nacional de Esculachos de Levante Popular da Juventude en la ciudad de São Paulo.
(*) Artículo de Guillermo Gómez-Peña: “En defensa del arte del performance”.
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